VIVA A PAZ! Facção boazinha p'omete não ocupa' o espaço deixado pela facção malvada após inte'venção das fo'ças a'madas.
"Oh, pat'ia a'mada, idolat'ada salve, salve..."
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Dentre as coisas que seriam pitorescas, se não fossem graves, está a postura de políticos latifundiários com relação ao meio ambiente. Não se trata apenas de uma postura que defenda o “desenvolvimento a qualquer custo”, o que seria anacrônico e equivocado. Trata-se de um discurso vazio de lógica, falacioso e abertamente desonesto.
Da Folha Online: Maggi e Cassol rebatem dados sobre desmatamento em Estados
“Os governadores de Mato Grosso, Blairo Maggi, e de Rondônia, Ivo Cassol, rebateram nesta quinta-feira dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que apontam os dois Estados como responsáveis pelos maiores índices de desmatamento no país.”
A primeira pergunta que me ocorre é: Mas... eles têm dados alternativos, de seus próprios satélites? (Peço perdão pela impertinência, prosseguimos com nossa programação normal.)
Segundo o governador de Rondônia “Proprietários grandes não têm interesse em derrubar [árvores] porque sabem que o ferro é grande. Quem derruba é o pequeno produtor. Precisamos de uma regularização fundiária com todos os órgãos funcionando juntos.”
Como???!! “Quem derruba é o pequeno produtor”?? Deve ser uma experiência curiosa, viver numa realidade alternativa em que latifundiários são realmente autuados por desmatamento, em que o “ferro seja grande” o suficiente para que estes prefiram não expandir a área de produção, depois de estragar os solos que exploraram antes. Mas, que “ferro” é este que diminui para as propriedades pequenas, promovendo a impunidade entre estas?
Ao tentar eximir os grandes proprietários de responsabilidade pelo desmatamento medido pelo Inpe, o personagem ainda se aproveita para incriminar os pequenos produtores. Que isenção tem um latifundiário para falar de pequenos produtores? Se não tem isenção, certamente tem interesse em defender a idéia de latifúndio como base de produção agrícola desejável para a agricultura do país. Como se esta não fosse a concepção dominante, infelizmente. Note-se a sugestão nada sutil de que acabar com a pequena propriedade em favor do latifúndio poderia ser um dos caminhos para o problema do desmatamento no país.
“Em audiência na Comissão de Meio Ambiente da Câmara, Maggi mostrou dados que apontam a redução no índice anual de desmatamento no Mato Grosso de 11.814 km2 para 2.476 km2 entre 2003 e 2007.”
Hummm... isto explica tudo!! Por isto, o Mato Grosso não é um dos Estados que mais desmata no país. Mas, apenas por curiosidade, não seria interessante comparar a área desmatada com a dos outros estados, ao invés de fornecer números absolutos? Pensando bem, números absolutos não explicam nada, mas deixam clara a estratégia do governador de tentar confundir as coisas.
“Segundo o governador, existe no Estado uma área não monitorada pelo Inpe em que houve a redução no índice de desmatamento.”
Ah.. bom! Então está explicado. E esta “área não monitorada pelo Inpe” tem o potencial de des-desmatar a área que o Inpe verificou como desmatada? Isso, claro, implicaria na possibilidade de um “desmatamento negativo”, em local diferente de onde o desmatamento original ocorreu, coisa que talvez o governador não se incomode em contar ao resto do mundo no que consiste.
O governador do Mato grosso afirma ainda que seu Estado “deve ser olhado como exemplo de se melhorar a produção sem fazer agressão ao meio ambiente, ao invés de sermos criticados”.
Então, desmatar APENAS 2.476Km2 em quatro anos (segundo dados do próprio governador) é “não fazer agressão ao meio-ambiente”? Talvez seja interessante lembrarr que esta área é superior a duas vezes a área da cidade do Rio de Janeiro. Isso é meia cidade maravilhosa por ano.
Conclui-se que, nesta realidade paralela em que vivem estes governadores, os pequenos proprietários são os vilões do desmatamento, que é pequeno, já que os dados dos satélites do Inpe são parciais. Ainda se pode concluir que estados que desmatam mais que o resto do país são exemplos de gerenciamento ambiental e otimização de produção sem agredir o meio-ambiente (apesar dos pequenos produtores). Faltou dizer que a melhora no desempenho ambiental é resultado da extinção planejada das pequenas propriedades responsáveis pelo desmatamento.
Como estas pessoas não vivem em uma realidade paralela e sabem muito bem das coisas, resta-nos pensar que usam de má fé, em flagrante desrespeito para com a inteligência alheia. Desrespeito este, diga-se de passagem, que é extensivo a todas as formas de vida do planeta. Foi este tipo de discurso que nos trouxe até os problemas ambientais que enfrentamos hoje, além de boa parte dos problemas econômicos decorrentes da degradação dos solos, sem falar na questão agrária.
Seria mesmo de rir, se não fossem estas pessoas, com este discurso, que governam Estados tão importantes para a manutenção da biodiversidade, que é, sem dúvida, a maior riqueza natural deste país.
Taí uma coisa que ninguém imaginaria no governo FHC. Um lavrador de uma cidade chamada Pindobaçu, na Bahia, foi até o Palácio do planalto para falar com o presidente Lula. Será que ele "queria era falar com o presidente pra ajudar toda esta gente que só faz sofrer?". Não é possível saber. O fato é que o cidadão foi detido por tentar "invadir o palácio", algemado e levado em uma ambulância do corpo de bombeiros. Diz a lenda que, ao ser detido, imobilizado, etc., pela segurança do Planalto, ele gritava: "Presidente, socorre eu!" (veja aqui.).
Posso estar enganado, mas acho que isto só poderia acontecer no governo de um ex-operário. Porque é com um presidente assim que um homem humilde se sente à vontade para ir "conversar". Independente dos méritos deste governo (ou da ausência deles, para alguns), o fato de ser um homem de origem pobre na presidência, talvez permita a cada homem pobre deste país sentir-se "um pouco presidente" também. Sempre restará a estas pessoas a esperança, talvez a fé, de que lula nunca traiu suas raízes e que fez "o que deixaram" porque "presidente também depende dos outros" e "senão, matavam ele". Apenas em um governo de origem popular estas coisas podem acontecer. Ou, no mínimo, em um governo cujo presidente tem imagem de homem do povo.
Imagino no governo FHC, alguém dizendo "Presidente, socorre eu!" e ganhando, além das algemas, um manual de bom uso da norma culta do idioma pátrio... Não, ninguém se atreveria.
A notícia tem alguns elementos quase míticos. O nosso personagem (viram como é fácil apropriar-se?) tem o nome singelo de Angelo de Jesus. Isso por si só já daria uma história fabulosa sobre uma boa nova (?) para o Presidente (e para o povo?). Talvez a conexão à internet do céu seja através de alguma empresa espanhola de telefonia e fique mais fácil mandar um mensageiro entregar a notícia pessoalmente. Ou talvez o Pai-Nosso, em sua sabedoria, não confie em sistemas de criptografia da rede. A onisciência deve ser uma fonte inesgotável de paranóia...
Seja como for, o Sr. Angelo de Jesus veio de um local chamado "Serra das Esmeraldas". Um anjo vindo da Serra das Esmeraldas? Difícil imaginar coisa mais significativa. Alguém que VOLTA do sonho dos bandeirantes de encontrar a riqueza de nossa terra (e apoderar-se dela toda, levando-a embora para Portugal) para falar com o presidente não é coisa que apareça todos os dias. No mínimo, é uma combinação de nomes muito poética: "Angelo de Jesus, vindo da Serra das Esmeraldas". Na voz do Cid Moreira, ficaria ótimo.
Há também elementos de conto de fadas. Um homem do povo procura o Rei (no caso, o Presidente, é preciso adequar as cosias) com uma mensagem importante, sobre uma praga iminente, ou uma traição. Ou talvez traga uma lembrança, um anel, ou uma carta, que o presidente deixou para trás, em suas origens humildes. No passado, o próprio presidente, antes de ser presidente, teria incumbido este senhor de trazer esta mensagem. Talvez a salvação de todo reino, perdão! de todo o país, dependa do que este homem tiver a dizer ao mandatário. A frase "Presidente, socorre eu!" mostra uma confiança enorme no presidente, talvez até intimidade. Quase faz pensar que eles se conhecem. Mistério, mistério...
Notícia mais recente (veja aqui) informa que o presidente enviou um médico de seus quadros para acompanhar o lavrador. Além disso, "outra pessoa do seu gabinete pessoal" deve prestar a assessoria necessária, no hospital ou em outro local. Humm... Um emissário encontra o mensageiro "no hospital ou em outro local". Que outro local? O sapo barbudo, nós já conhecemos, mas cadê a princesa? E a bruxa? E a cigana? O mistério permanece...
Contudo, podemos dormir tranqüilos. Parece que a mensagem, enfim, será entregue.
O Sol é Para Todos, Harper Lee
Título Original: To Kill a Mockingbird (1960)
Tradução: Fernando de Castro Ferro (1963)
Ed. Civilização Brasileira
Típica leitura de férias (para mim), o livro conta a história de Atticus Finch, um advogado do Alabama que defende um negro acusado de violentar uma jovem branca. A história é contada do ponto de vista dos filhos deste advogado de província, o que confere um tom bastante leve à narrativa. A autora retrata de forma bastante delicada e sutil o contexto das relações raciais no sul dos EUA na primeira metade do século XX. A influência deste contexto sobre os filhos de Finch e seu indefectível amigo de férias são mostrados com enorme sensibilidade. É difícil não reconhecer em algumas passagens um pouco da infância de todos nós.
Viúvo, com dois filhos relativamente pequenos, Atticus Finch passa muitas vezes a imagem do pai idealizado nas décadas de 1960-70. Contudo, tanto o personagem, como a trama realista, parecem bastante verossímeis. Isto constrói uma narrativa agradável e, de alguma forma, otimista. Há uma sugestão, presente ao longo do livro todo, de que mesmo nas sociedades e situações onde a intolerância reina absoluta, há pessoas que lutam silenciosamente pela igualdade, através da não-violência, apenas não se rendendo aos valores com os quais não concordam.
O livro foi publicado em 1960, não por acaso cinco anos após o boicote aos ônibus liderado pelo reverendo Martin Luther King Jr. Em 1963, King lideraria a histórica marcha a Washington DC, quando proferiu seu famoso discurso “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”)*. Não é demais lembrar que King foi o mentor do uso da resistência pacífica e da não violência na luta pelos direitos civis nos EUA.
A tradução que li é de 1963. Em alguns pontos, a construção das frases e as expressões utilizadas deixam a impressão de uma tradução Lusitana, ou de adaptação desta. Mas, apesar de causar alguma estranheza em alguns pontos, a leitura flui naturalmente. O filme de 1962, baseado no livro, ganhou três Óscares: melhor direção, melhor roteiro e melhor ator, com Gregory Peck no papel de Atticus Finch.
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* O texto original do discurso (em inglês) pode ser encontrado facilmente na Internet (por exemplo, aqui, com uma breve introdução histórica). Uma versão em português pode ser lida aqui.