sábado, 1 de janeiro de 2011

A Estréia

Texto já publicado em outro blogue. Sua "estréia" se deu há três anos, nos Ecos Diversos. Aqui, portanto, uma re-estréia. Um bom ano de 2011 a todos os meus (dois? três?) leitores!



A ESTRÉIA

Na platéia, figuras imponentes dos três poderes, representantes do clero, construtores, empresários, banqueiros, oficiais das três armas e da polícia militar, delegados, tabeliães, professores, balconistas, garçons, cozinheiros, alguns operários, o menino do farol com seus chicletes, o guardador de carros com seu paninho sujo e outros dignos representantes da sociedade. Conversam animadamente, respeitando os costumes e os limites sociais adequados, mantidos da forma mais conveniente. “Conversa-se com quem se tem assunto.” Nada faz mais sentido nesta data, ao mesmo tempo solene e festiva.

Há grandes expectativas e o otimismo para o futuro é contagiante. O futuro é lindo, visto daqui!

O país em franco desenvolvimento. Com redução dos impostos e dos juros, teremos crédito barato, o consumo em alta, a inflação controlada e baixa. A produção industrial estará em crescimento, a poupança, em ascensão e as exportações crescerão. A reforma agrária trará a maior produção agrícola da nossa história. A igualdade social será construída sem prejuízo para os mais abastados. Todo cidadão terá tudo que precisa para viver com dignidade e talvez até um pouco mais. A saúde e a educação públicas atingirão níveis de excelência, patamar a ser alcançado pelo setor privado. Todas as formas de crime e de injustiça serão abolidas. As drogas, o aborto, a corrupção, a pobreza, a inveja, a ira, a vaidade, o ódio, o adultério, desaparecerão sem que medidas mais duras precisem ser tomadas. Criminosos, terroristas e conspiradores terão consciência do mal que fazem à sociedade, entregarão suas armas e irão espontaneamente viver como monges reclusos. E serão felizes.

O momento se aproxima. Primeira chamada, segunda chamada, terceira chamada, as luzes se apagam. Contagem regressiva. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1...

As cortinas se abrem. Sobre o palco ao fundo, há um espelho enorme. Em frente a ele, em pé, um homem pequeno, franzino e nu, cobre os olhos e os genitais. Não tem cabelos, não é jovem, nem velho. A cabeça é grande e o corpo todo tem uma aparência de secura áspera.

Aos poucos, ele se encolhe até encostar a cabeça no chão, sem descobrir o rosto e os genitais. Treme e soluça, como se tudo lhe faltasse. A luz ilumina a platéia silenciosa, estática.

No silêncio há um arrepio, agudo, gelado, aquela fração mínima de tempo que se demora a perceber o corte de uma navalha. E o silêncio se dilata.

O corpo, jogado ao chão, soluça convulsivamente. Faltando-lhe mais mãos para se cobrir por inteiro, mantém os genitais e os olhos cobertos.

O espelho agora reflete cada espectador, individualmente. Por um instante mágico, toda hipocrisia, toda mentira, toda vileza, toda iniqüidade, surgem monstruosas, caricatas, e cada um vê a si mesmo, seus pecados, seus crimes, suas máculas, suas omissões e mentiras confortáveis. Depois, vêem-se em seus grupos. Logo, num quadro bizarro, todos reconhecem na podridão alheia as suas próprias.

O público permanece imóvel como um suspiro preso, o tempo suspenso, que não é agora.

Ouve-se o ruído de pés correndo, pesados. Logo se percebe o pequeno homem a correr a esmo pelo palco. Quando encontra o espelho, ataca-o às cabeçadas e com os cotovelos, pés, joelhos, ombros, com o corpo todo, sem nunca descobrir os olhos ou as virilhas. Corta-se, sangra e continua a golpear o ar, pisoteando os cacos, mesmo com o espelho já completamente destruído. Seus soluços, quase infantis, vão sumindo enquanto ele se enrola lentamente no chão, no meio exato do palco. Finalmente, resta apenas o ritmo da respiração ofegante.

Em silêncio, fecham-se as cortinas.

O teatro suspira em uníssono. As expressões se relaxam, como sob a brisa fresca ao fim do dia quente.

Agora tudo está mudado. O que passou, passou. Sem ressentimentos, é hora de reiniciar!

Como se ensaiada, arrebenta uma onda de aplausos, palmas, assobios!

Todos gritam seus votos e riem e choram e se abraçam, até que as lágrimas secam sobre os rostos cansados de sorrir.

Voltam, então, para suas casas, suas vidas.

O ano novo estreou.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

a cordinha, o inferno e os outros

Interrompemos nossa programação normal(?) para um anúncio não-comercial.

Este papo de que há coisas que ninguém tira, que a garra, a "essência", a vontade de viver, "o sonho", etc. são coisas que nos definem... em mau português, digo que este papo é todo furado. Há horas em que qualquer ser humano (o que eu às vezes acho que não é todo mundo) queria mesmo era mergulhar num vácuo-sono-eterno.

Não, não, nada de depressão, nada de tendência suicida e, especialmente, nada destes diagnósticos menos bem embasados que filosofia de boteco. A coisa é bem mais simples e, ao mesmo tempo, mais profunda. Tem hora em que simplesmente a gente conclui que não vale a pena. Não é querer morrer, é achar que era melhor não ter nascido ou, melhor ainda, "já deu, tou satisfeito, fecha a conta, passa a régua". Mas, claro, nenhuma pessoa "decente" e minimamente saudável quer causar tristeza nos outros. Então, o melhor a fazer é seguir pagando a prestação do lote no reino dos céus, "com fista panorrámica parra o chardim do Êden", como no sermón do padre alemôn.

Tá, eu sei que ninguém mais conhece "a sermôn do patre alemôn". Tudo bem, é uma piada velha e que perdeu a graça há anos. Ou eu perdi a graça dela, sei lá. Vai ver que fui eu que mudei, envelheci. "Como o vinho", me disseram uma vez, "melhor com o tempo". Lembro que respondi: "só tem que tomar cuidado pra não virar vinagre". Não era piada, mas quase perdi mais de um amigo por causa destas coisas.

Vale tudo para não aborrecer os outros, né? Principalmente seguir na mesma vidinha sem perspectiva de conseguir fazer coisa alguma que dê algum tipo de satisfação. "Ah, mas viver é tão bom e não custa nada", dizem os outros. "Os outros", este massa amorfa e pouco concreta, e ao mesmo tempo tão... presente. Alteridade?  humpf. Um conceito abstrato provavelmente projetado, entre outras coisas, para fazer o indivíduo se sentir culpado de estar (perdão) de saco cheio. Culpado por querer puxar a cordinha. "Motorista, dá pra me deixar na próxima esquina?" Mas o maldito motora anda mais três quarteirões morro abaixo e morro acima pra não parar fora do ponto. E daí, você já desistiu de descer, porque lá fora tá chovendo ou porque vc tá com preguiça de caminhar tudo de volta e decide esperar o busão passar ali na volta. 

"Os outros" são a outra metade da síndrome de Estocolmo. A OUTRA metade, que não sou eu. "Queria fechar a minha conta, mas não posso deixar o pessoal sozinho no bar".

Um dos problemas de falar sozinho é que a gente sempre acha que tudo que a gente diz é óbvio. "Síndrome de Estocolmo", por exemplo, não é óbvio. É um termo usado para descrever o apego que reféns às vezes desenvolvem pelo sequestrador. Mas também pode ser o carcereiro, o estuprador, o chefe... pode ser qualquer um que prenda a pessoa em algum lugar contra a vontade, abusando dela ou não. Não sei se na Suécia tem mais disso. Uma vez me disseram que as pessoas se matavam mais na Suécia porque todas as necessidade básicas dos cidadãos eram supridas por um tipo de social-democracia e as pessoas ficavam entediadas pela falta de desafios na vida. Ou seja, ter tudo que se deseja gera tédio e leva ao suicídio. Um extensão deste pensamento seria que, num lugar assim ser sequestrado e tomar uns tapas (ou quem sabe ser abusado) seria uma quebra de rotina que poderia ser desejável. Fico imaginando se o idiota que inventou estas coisas ganhou dinheiro pra isso. Talvez estas besteiras fossem algum tipo de propaganda eleitoreira nada sutil para dizer que as mazelas do país faziam daqui um lugar melhor do que "lá". Seria o caso de se agradecer a um sistema que evita tantos suicídios por tédio com relação à vida, se o número de homicídios neste não superasse o de suicídios naquele.

Enfim, "os outros": há quem diga que são um mal necessário. Talvez sejam necessários, nunca saberemos, porque são inevitáveis. E o que é inevitável não é bom ou mau, tá aí e pronto. O Sartre dizia: "O inferno são os outros", o que deve soar muito mais bonito e profundo em francês. É, sem dúvida, uma ótima frase de efeito, boa para citar em contextos como este e parecer erudito. Tentemos, apenas como exercício teórico, equacionar as duas frases: "O inferno são os outros" com "Os outros são um mal necessário", resultando em "O inferno é um mal necessário". Interessante.

Este exercício pode ser estendido a outras pérolas da cultura nacional(ou mundial? ou humana?): "Mas, o que os outros vão pensar/dizer, se souberem disso?" viraria "mas o que o inferno vai pensar/dizer, se souber disso?" Imagino o inferno todo escandalizado, chocado até, porque algum pobre pecador foi, de fato muito pecador (em sua própria concepção) e, talvez por isto, tenha até ficado menos pobre e/ou menos infeliz. (Claro que, se pecar e continuar pobre, obviamente, os outros vão pensar mal dele até no inferno.)

Ou, ainda: "...não tou nem aí, os outros não pagam as minhas contas" viraria "...não tou nem aí, o inferno não paga as minhas contas". Sim, meu filho, é verdade, o inferno não paga suas contas, mas cobra que é uma beleza. Os outros também, o que corrobora a frase do Sartre, que era estrábico, mas não era bobo.

No limite, usando a teoria cuja veracidade acabamos de verificar, quem decide não fechar a conta por causa dos outros confirma uma outra pérola do conformismo universal: a de que todo mundo acaba tendo o que merece. Todas estas seguem na lógica do "tá ruim, mas tá bom", do "tá tão ruim que tou com medo que piore" ou, e esta é uma das uma das piores (por favor, tirem as crianças da sala): "...se tá no inferno, aproveita e abraça o diabo".

Não, não, gente, não quero abraçar o diabo, apesar de estar cercado de "outros". Tava mais a fim de uma saída "à lá" Capitão Nascimento: "01, pede pra sair!" Mas, infelizmente, esta opção não está disponível na versão demo do joguinho* e não vou ser eu a pagar pra entrar nesta coisa só pra ter o privilégio de pedir pra sair.

Mas existe um consolo. Questionável, mesquinho, egoísta, e nada construtivo, mas, ainda assim, é um consolo. Eu também sou "os outros" deles. Tá, não chega a consolar de verdade, mas dá pra passar o tempo retribuindo. Até que ELES queiram puxar a cordinha. Ou será que todo mundo já tá querendo, mas ninguém quer ser o primeiro?

Seguimos, agora, com nossa programação normal.

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* "o jogo da vida", patrocínio da Usina de Clichés, onde seu lugar-comum é mais comum!.

domingo, 28 de novembro de 2010

Game Ove'?

imagem original daqui


VIVA A PAZ! Facção boazinha p'omete não ocupa' o espaço deixado pela facção malvada após inte'venção das fo'ças a'madas.

"Oh, pat'ia a'mada, idolat'ada salve, salve..."

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também nos minimínimos

sábado, 27 de novembro de 2010

De volta...

Retomando postagens em breve!

A iniciativa já foi retomada, e vergonha está devidamente posta de lado... agroa só falta... o que é que falta mesmo?

Voltamos em breve com texto inédito.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Difusão?

Vejam só, que coisa curiosa. Logo depois de publicar o post anterior, eu enviei link para alguns amigos. Uma destas pessoas* comentou que o carro logo acima do Ford Focus na categoria é o Ford Fusion. Um carro para difusão... de que? Seria da imagem do Ford Focus? Acho que nunca saberemos, mas minha hipótese é extamente esta, o nome teria a finalidade de difundir a imagem do Ford Focus...

Ainda vou elaborar uma lista de nomes de produtos que geram estes trocadilhos. Talvez alguma das empresas se interesse em comprar alguma destas idéias... Ou em perguntar antes de lançar um produto com um nome ... piadável.

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* nome omitido para proteger o(a) culpado(a).

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Imagem difusa

Já faz vários anos, no cinema. Durante os trêileres(?), uma voz masculina começou a falar, pausadamente (pausadamente soa bem mal, né?) em um comercial. Na hora, não sei se devida a alguma falha na projeção, alguma crise aguda de miopia, problemas auditivos ou defeito no sistema de som, eu concluí que alguns produtos, com determinados nomes NÃO PODEM ser anunciados em determinadas mídias. A gargalhada foi sonora e solitário, na sala que não estava vazia. Tá certo, o nome por si só é um convite ao trocadilho, a mídia só fez o favor de evidenciar ainda mais a coisa.

Anos depois, em um momento desocupado, o autor destas maltraçadas produziu a obra de arte a seguir, baseada no episódio:


Ah, a infâmia...

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sábado, 28 de junho de 2008

Os Vices

A eleição presidencial dos EUA deste ano traz algumas peculiaridades em relação às eleições anteriores. Em primeiro lugar, a possibilidade de se ter, pela primeira vez, um negro e uma mulher com chances significativas de serem eleitos. Definidos os candidatos dos dois partidos dominantes, temos o afro-americano Barack Obama e John McCain, o homem mais velho a concorrer a um primeiro mandato presidencial nos EUA. O fato de Obama não ser descendente de escravos não muda o significado histórico da sua indicação. Estes precedentes históricos já vem sendo discutidos amplamente, desde o início das campanhas das prévias para as eleições.
Façamos uma digressão breve, acerca da história recente do Brasil. Em 1984, o colégio eleitoral elegeu Tancredo Neves presidente, após vinte anos de ditadura militar. Tancredo faleceu em 21 de abril de 1984, aos 75 anos, sem assumir o governo. O mandato foi cumprido na íntegra por seu vice-presidente, José Sarney. Em 1990, nas primeiras eleições diretas para presidente em mais de 25 anos, elegeu-se Fernando Collor de Mello, um político jovem e cheio de energia que renunciou à presidência na tentativa de escapar ao processo de impeachment. Seu vice-presidente, Itamar Franco, assumiu a presidência e viu, eleito como seu sucessor, o seu ministro da Fazenda (e, antes, Ministro da Relações Exteriores) Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
O exemplo da história do Brasil nos anos 80 e 90 pode ser de algum interesse para se pensar em alguns desdobramentos possíveis da eleição deste ano, nos EUA. Acredito que se trata de uma eleição na qual deve-se prestar muita atenção aos candidatos à vice-presidência, mais atenção que se prestaria em outra eleição qualquer. Vejamos.
O candidato republicano, John McCain, é um homem idoso que parece muito saudável e bastante bem conservado. Se eleito, nada indica a priori que não tenha condições de saúde de chegar ao fim de seu mandato. Por outro lado, não é de todo improvável que o peso dos anos se faça sentir a este senhor simpático, impedindo-do, de alguma forma, de concluir seus quatro anos de governo. Mesmo concluindo este primeiro mandato, concorrerá a um segundo? No primeiro caso, assume o vice. No segundo caso, o vice é um dos candidatos naturais à sucessão de um presidente que não concorre a um próximo mandato.
Pelo lado dos democratas, Barack Obama é um candidato jovem e aparentemente saudável. Não há dúvidas de que, sendo eleito e completando seu primeiro mandato, concorrerá a um segundo, provavelmente com boas condições obter uma segunda vitória. Contudo, não é difícil imaginar a resistência das alas mais conservadoras e dos segmentos racistas da sociedade estadunidense a terem (ou manterem) um presidente afrodescendente. Obama, uma vez eleito, corre, mais do que outros presidentes na história recente, o risco de sofrer um atentado de qualquer forma. Quando digo “de qualquer forma” não estou me referindo aos diferentes métodos que os seres humanos têm de matar seus semelhantes. Suponhamos, por um momento, que o jovem e carismático presidente recém-eleito sofresse um atendado “convencional”, suponhamos, a bala, ou a bomba e viesse a falecer. Seria mais um mártir negro dentre tantos, alguém com um peso histórico maior que o do Reverendo Martin Luther King Jr, assassinado em 1968. O assassinato, portanto, não seria uma forma “adequada” de atentado. Consideremos, portanto, uma modalidade de atentado em que a política seja ao mesmo tempo a arma e o alvo. Supondo que algum grupo racista deseje apear Obama do poder, é possível que preferisse criar algum escândalo de qualquer natureza e submetê-lo a um processo de impeachment, seguido de execração pública. Assim, não se criaria um mártir a mais no panteão das lutas pela igualdade entre os seres humanos. Pelo contrário, a execração pública que se seguisse ao impeachment tenderia a reforçar as idéias de grupos racistas em um país que tem um histórico de problemas com a questão racial. As conseqüências de algo seriam imprevisíveis e terríveis para toda a população dos Estados Unidos, senão do mundo. De qualquer forma, quem assumiria a presidência, seria o (a?) vice-presidente.
Em um artigo recente, Reid Wilson (editor associado do portal RealClearPolitics.com) discute que, desde a eleição de John Kennedy, em 1960, não há evidência de que o candidato a vice-presidente tenha uma contribuição relevante em termos de votos para a garantir a eleição de uma chapa presidencial. Na eleição de Kennedy, o vice em sua chapa, Lyndon Johnson, teria ajudado Keneddy a garantir os votos necessários para vencer no Texas. Ironicamente, foi durante um desfile em carro aberto em Dallas, Texas, em 1963, que Kennedy foi assassinado. Lyndon Johnson cumpriu o final do mandato de Kennedy, elegendo-se para o mandato seguinte. Foi em seu governo que os EUA mergulharam, de fato, na guerra do Vietnam.
A dificuldade em escolher um companheiro de chapa é maior neste eleição do que na maioria, devido não apenas às peculiaridades de cada um dos dois candidatos, mas também às suas trajetórias pessoais e à relação de cada um com seu partido. McCain tenta se afastar da imagem do atual governo americano e Obama ainda precisa lidar com sua ex-concorrente Hillary Clinton, preterida nas primárias democratas e supostamente bastante interessada em fazer parte da chapa presidencial. No momento, a dificuldade está em escolher um vice-presidente que agregue votos à chapa, que possa fazer diferença na eleição. Portanto, o potencial para se tornar um bom presidente não é o primeiro critério na escolha do vice-presidente, mas deve ser um critério importante. É um paradoxo da democracia nesta era de comunicação em massa que nem sempre os mais capazes de vencer as eleições sejam os melhor capazes de governar. Isto talvez seja ainda mais verdade para os candidatos a vice, aqui, lá e em todo lugar.
Quem quer que vença as eleições terá um trabalho gigantesco de reforma a desempenhar. Espera-se que cumpra seu mandato até o final. Por via das dúvidas, seria desejável que ambos, o presidente eleito e seu vice, sejam verdadeiros estadistas que busquem a promoção da paz ou, no mínimo, promovam guerras pequenas, evitando guerras grandes. Se é sempre de bom alvitre prestar atenção nos candidatos à vice-presidência, isto é especialmente verdade nesta eleição.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Os Governadores Fazendeiros e o Desmatamento

Dentre as coisas que seriam pitorescas, se não fossem graves, está a postura de políticos latifundiários com relação ao meio ambiente. Não se trata apenas de uma postura que defenda o “desenvolvimento a qualquer custo”, o que seria anacrônico e equivocado. Trata-se de um discurso vazio de lógica, falacioso e abertamente desonesto.

Da Folha Online: Maggi e Cassol rebatem dados sobre desmatamento em Estados

“Os governadores de Mato Grosso, Blairo Maggi, e de Rondônia, Ivo Cassol, rebateram nesta quinta-feira dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que apontam os dois Estados como responsáveis pelos maiores índices de desmatamento no país.”

A primeira pergunta que me ocorre é: Mas... eles têm dados alternativos, de seus próprios satélites? (Peço perdão pela impertinência, prosseguimos com nossa programação normal.)

Segundo o governador de Rondônia “Proprietários grandes não têm interesse em derrubar [árvores] porque sabem que o ferro é grande. Quem derruba é o pequeno produtor. Precisamos de uma regularização fundiária com todos os órgãos funcionando juntos.”

Como???!! “Quem derruba é o pequeno produtor”?? Deve ser uma experiência curiosa, viver numa realidade alternativa em que latifundiários são realmente autuados por desmatamento, em que o “ferro seja grande” o suficiente para que estes prefiram não expandir a área de produção, depois de estragar os solos que exploraram antes. Mas, que “ferro” é este que diminui para as propriedades pequenas, promovendo a impunidade entre estas?

Ao tentar eximir os grandes proprietários de responsabilidade pelo desmatamento medido pelo Inpe, o personagem ainda se aproveita para incriminar os pequenos produtores. Que isenção tem um latifundiário para falar de pequenos produtores? Se não tem isenção, certamente tem interesse em defender a idéia de latifúndio como base de produção agrícola desejável para a agricultura do país. Como se esta não fosse a concepção dominante, infelizmente. Note-se a sugestão nada sutil de que acabar com a pequena propriedade em favor do latifúndio poderia ser um dos caminhos para o problema do desmatamento no país.

“Em audiência na Comissão de Meio Ambiente da Câmara, Maggi mostrou dados que apontam a redução no índice anual de desmatamento no Mato Grosso de 11.814 km2 para 2.476 km2 entre 2003 e 2007.”

Hummm... isto explica tudo!! Por isto, o Mato Grosso não é um dos Estados que mais desmata no país. Mas, apenas por curiosidade, não seria interessante comparar a área desmatada com a dos outros estados, ao invés de fornecer números absolutos? Pensando bem, números absolutos não explicam nada, mas deixam clara a estratégia do governador de tentar confundir as coisas.

“Segundo o governador, existe no Estado uma área não monitorada pelo Inpe em que houve a redução no índice de desmatamento.”

Ah.. bom! Então está explicado. E esta “área não monitorada pelo Inpe” tem o potencial de des-desmatar a área que o Inpe verificou como desmatada? Isso, claro, implicaria na possibilidade de um “desmatamento negativo”, em local diferente de onde o desmatamento original ocorreu, coisa que talvez o governador não se incomode em contar ao resto do mundo no que consiste.

O governador do Mato grosso afirma ainda que seu Estado “deve ser olhado como exemplo de se melhorar a produção sem fazer agressão ao meio ambiente, ao invés de sermos criticados”.

Então, desmatar APENAS 2.476Km2 em quatro anos (segundo dados do próprio governador) é “não fazer agressão ao meio-ambiente”? Talvez seja interessante lembrarr que esta área é superior a duas vezes a área da cidade do Rio de Janeiro. Isso é meia cidade maravilhosa por ano.

Conclui-se que, nesta realidade paralela em que vivem estes governadores, os pequenos proprietários são os vilões do desmatamento, que é pequeno, já que os dados dos satélites do Inpe são parciais. Ainda se pode concluir que estados que desmatam mais que o resto do país são exemplos de gerenciamento ambiental e otimização de produção sem agredir o meio-ambiente (apesar dos pequenos produtores). Faltou dizer que a melhora no desempenho ambiental é resultado da extinção planejada das pequenas propriedades responsáveis pelo desmatamento.

Como estas pessoas não vivem em uma realidade paralela e sabem muito bem das coisas, resta-nos pensar que usam de má fé, em flagrante desrespeito para com a inteligência alheia. Desrespeito este, diga-se de passagem, que é extensivo a todas as formas de vida do planeta. Foi este tipo de discurso que nos trouxe até os problemas ambientais que enfrentamos hoje, além de boa parte dos problemas econômicos decorrentes da degradação dos solos, sem falar na questão agrária.

Seria mesmo de rir, se não fossem estas pessoas, com este discurso, que governam Estados tão importantes para a manutenção da biodiversidade, que é, sem dúvida, a maior riqueza natural deste país.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Biografia Ilustre, 2a. parte.

E... a piada (será?) tem continuação.

Do Terra: Wagner Moura é pego de surpresa com convite de Belo para filme

"O ator Wagner Moura se assustou ao saber que estava sendo cotado para interpretar o cantor Belo em uma possível cinebiografia do sambista, conforme informou o jornal O Dia."

De fato, é assustador saber que "Belo" tem a intenção de filmar sua própria biografia. Ainda mais para quem estaria escalado para o papel principal.

Este blogue publicou, em novembro passado, comentário acerca das intenções cinematográficas do pagodeiro.

Como Wagner Moura parece não estar disponível no momento, acho que o rapaz vai ter que procurar outro intérprete. Todas as três pessoas que leram o post sobre o assunto (incluindo o autor, ou seja, eu) acharam que era piada, mas o que foi dito antes como uma sugestão gratuita e involuntária deste blogue.

Depois do nascimento dos gêmeos, o casal mais bonito de Hollywood deve encontrar vaga em sua agenda. Ouvi, pela vizinhança daqui, que já estão recusando papéis até 2010, na expectativa de um convite para este épico de sexo (será?), drogas (pergunte à polícia) e pagode (NÃO pergunte aos roqueiros).

Como dizia minha mãe: "pretensão e água benta, cada um toma o quanto quer."

terça-feira, 10 de junho de 2008

Será??

A priori, não tenho uma opinião formada sobre o boicote aos jogos olímpicos de Pequim.

Mas uma dúvida insolúvel ronda por aqui:

Será que se os jogos fossem no Irã, na Venezuela, em Cuba, na Coréia do Norte ou em outro país do "eixo do mal", todas estas vozes que se manifestam tão claramente contra o boicote ainda gritariam o mesmo?

Afinal, os argumentos são de que não se mistura política com esporte...

Nunca saberemos.

sábado, 10 de novembro de 2007

Alhures, algures, nenhures...

Alhures é irmã de algures. São duas velhinhas, quase aposentadas, talvez pela necessidade de dar explicações. "Vou alhures", "estava algures" parecem não dizer o suficiente e a pergunta é quase inevitável: "onde?"
Deve ser por economia que acabamos dizendo logo o onde, tirando a oportunidade de alongar o diálogo (por que não dar a deixa para uma pergunta a mais?) e desusando estas palavras, bonitas como nomes de mulher.
Nenhures, o irmão rebelde, também vai no mesmo caminho. Desusado, creio, devido à má-fama de frases do tipo "estava nenhures".
Algur, o irmão mais velho e o primeiro a se aposentar não é visto há tempos. Tanto tempo sem notícias e a família aos poucos se extinguindo...

Ah... quantas vítimas faz a indiscrição!

Proponho uma campanha para que políticos de todos os lados (de cima, de baixo, de fora, de dentro, etc) adotem estas palavras em seus discursos vagos e eloqüentemente vazios de conteúdo informativo e/ou criticável. Estão velhas, é verdade, mas com algum lustro, podem ainda servir muito a quem cuidar bem delas. São fiéis, amigáveis e trazem anos de tradição!
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quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Biografia ilustre a caminho?


Eu não resisto! A piada já veio pronta e confesso que ia deixar passar, mas não dá!
Vejamos:

Do Terra: Belo quer Wagner Moura em filme sobre sua vida

"Belo* resolveu que quer fazer um filme sobre sua vida. Segundo a coluna Olá! do jornal Agora, o cantor gostaria que Wagner Moura o interpretasse."

Como se não bastasse:

"Ainda de acordo com a publicação, a dançarina Gracyanne Barbosa, noiva de Belo, gostaria que Camila Pitanga ou Alessandra Negrini para representá-la na telona. (SIC)"

Imagino Hollywood em polvorosa, Brad Pitt e Angelina Jolie fazendo protestos e ameaçando nunca mais fazerem filmes, se não forem convidados para estes papéis.

O mais curioso é que ninguém falou quem faria o papel da Viviane Araújo**. Será que Angelina Jolie ficaria em dúvida entre os dois papéis?

Depois dizem que este mundo é sério...
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* De acordo com a Wikipedia: "Belo, nome artístico de Marcelo Pires Vieira, um cantor brasileiro de pagode, ex-integrante do grupo Soweto e notório por seu envolvimento com o tráfico de drogas."
** Para quem não se lembra, a ex-esposa do rapaz
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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

E o mistério...

No post anterior, eu falava que a aventura do lavrador Angelo de Jesus, que tentou "invadir" o Palácio do Planalto.

Parece que ele tinha mesmo uma mensagem a levar ao presidente. Pelo menos uma mensagem, à qual a mídia teve acesso:

http://www.estadao.com.br/nacional/not_nac55416,0.htm

O Sr. Angelo é portador de hanseníase, uma doença terrível e um problema seríssimo de saúde pública. Segundo relatos da mídia, ele trazia consigo uma imagem de São Lázaro, que sofreu da mesma doença e foi ressuscitado por Jesus (segundo o Evangelho de São João). Naturalmente, a imagem do santo representa uma esperança de cura do mal que o aflige, talvez de milagre. Mas há servir também para mostrar que o que é doente pode se curar, que as doenças têm tratamento e que infecções podem ser debeladas. Atualmente há tratamento para a hanseníase.

Eis aí uma mensagem nem tão cifrada, que nosso Presidente poderia entender... Há a esperança de ressurreição. Mesmo um governo pode se livrar daquilo que não condiz com a idéia original. e, de alguma forma, renascer. Nada mais oportuno...

É isso aí, Sr. Angelo! Todos nós esperamos que sua mensagem chegue ao Presidente e que ele tome as devidas... ações. (Eu ia escrevendo "providências", mas diante deste post do JacaBang, achei mais razoável usar outra expressão.)

É isso, eu acho...

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

"Presidente, socorre eu!"

Taí uma coisa que ninguém imaginaria no governo FHC. Um lavrador de uma cidade chamada Pindobaçu, na Bahia, foi até o Palácio do planalto para falar com o presidente Lula. Será que ele "queria era falar com o presidente pra ajudar toda esta gente que só faz sofrer?". Não é possível saber. O fato é que o cidadão foi detido por tentar "invadir o palácio", algemado e levado em uma ambulância do corpo de bombeiros. Diz a lenda que, ao ser detido, imobilizado, etc., pela segurança do Planalto, ele gritava: "Presidente, socorre eu!" (veja aqui.).

Posso estar enganado, mas acho que isto só poderia acontecer no governo de um ex-operário. Porque é com um presidente assim que um homem humilde se sente à vontade para ir "conversar". Independente dos méritos deste governo (ou da ausência deles, para alguns), o fato de ser um homem de origem pobre na presidência, talvez permita a cada homem pobre deste país sentir-se "um pouco presidente" também. Sempre restará a estas pessoas a esperança, talvez a fé, de que lula nunca traiu suas raízes e que fez "o que deixaram" porque "presidente também depende dos outros" e "senão, matavam ele". Apenas em um governo de origem popular estas coisas podem acontecer. Ou, no mínimo, em um governo cujo presidente tem imagem de homem do povo.

Imagino no governo FHC, alguém dizendo "Presidente, socorre eu!" e ganhando, além das algemas, um manual de bom uso da norma culta do idioma pátrio... Não, ninguém se atreveria.

A notícia tem alguns elementos quase míticos. O nosso personagem (viram como é fácil apropriar-se?) tem o nome singelo de Angelo de Jesus. Isso por si só já daria uma história fabulosa sobre uma boa nova (?) para o Presidente (e para o povo?). Talvez a conexão à internet do céu seja através de alguma empresa espanhola de telefonia e fique mais fácil mandar um mensageiro entregar a notícia pessoalmente. Ou talvez o Pai-Nosso, em sua sabedoria, não confie em sistemas de criptografia da rede. A onisciência deve ser uma fonte inesgotável de paranóia...

Seja como for, o Sr. Angelo de Jesus veio de um local chamado "Serra das Esmeraldas". Um anjo vindo da Serra das Esmeraldas? Difícil imaginar coisa mais significativa. Alguém que VOLTA do sonho dos bandeirantes de encontrar a riqueza de nossa terra (e apoderar-se dela toda, levando-a embora para Portugal) para falar com o presidente não é coisa que apareça todos os dias. No mínimo, é uma combinação de nomes muito poética: "Angelo de Jesus, vindo da Serra das Esmeraldas". Na voz do Cid Moreira, ficaria ótimo.

Há também elementos de conto de fadas. Um homem do povo procura o Rei (no caso, o Presidente, é preciso adequar as cosias) com uma mensagem importante, sobre uma praga iminente, ou uma traição. Ou talvez traga uma lembrança, um anel, ou uma carta, que o presidente deixou para trás, em suas origens humildes. No passado, o próprio presidente, antes de ser presidente, teria incumbido este senhor de trazer esta mensagem. Talvez a salvação de todo reino, perdão! de todo o país, dependa do que este homem tiver a dizer ao mandatário. A frase "Presidente, socorre eu!" mostra uma confiança enorme no presidente, talvez até intimidade. Quase faz pensar que eles se conhecem. Mistério, mistério...

Como cresci durante a ditadura, sempre permanece uma dúvida, talvez um pouco paranóica. Será que ele foi levado por uma ambulância porque não quiseram usar um camburão para levar um cidadão que agiu com ingenuidade, mas tentando exercer sua cidadania dentro da civilidade? Porque estava doente? Passou mal? Ou será que ele "se machucou" no processo de ser imobilizado, detido, etc. Tenho esperança que seja pela primeira opção, ou que não seja pela última. De qualquer forma, ser "escorraçado pelos guardas do palácio" não é novidade nenhuma. Seja por puro preconceito, ou por trazer uma mensagem que talvez algum cardeal preferisse que o rei (perdão!) não recebesse. Estas coisas fazem parte das agruras de todo herói romântico.

Tenhamos fé. Nos romances, assim como nos contos de fadas , as coisas costumam acabar bem.

Notícia mais recente (veja aqui) informa que o presidente enviou um médico de seus quadros para acompanhar o lavrador. Além disso, "outra pessoa do seu gabinete pessoal" deve prestar a assessoria necessária, no hospital ou em outro local. Humm... Um emissário encontra o mensageiro "no hospital ou em outro local". Que outro local? O sapo barbudo, nós já conhecemos, mas cadê a princesa? E a bruxa? E a cigana? O mistério permanece...

Contudo, podemos dormir tranqüilos. Parece que a mensagem, enfim, será entregue.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Divagações antigas - Japão e Inglaterra

Há muitos anos, num destes momentos de divagação intensa, tive um pensamento um pouco estranho. Comecei a pensar em como a Inglaterra e o Japão se parecem. Tudo bem, são países insulares e pessoas que nascem e crescem em ilhas podem ter algumas coisas em comum. Mas a coisa foi um pouco além disso. Tudo bem, não muito além...

Pode-se atribuir em parte à insularidade as tendências imperialistas dos dois países, talvez mais aparentes (não saberia dizer se mais acentuadas) do que os outros países. Uma pergunta interessante para geógrafos e historiadores, talvez.

Ilhas são, por definição, territórios claramente delimitados. Quem vive em ilhas talvez passe a vida sendo confrontado com a borda de seu mundo. Ao mesmo tempo, quanto menor a ilha, menor a área agriculturável e mais rapidamente esgotáveis os recursos para sustentar a população, o que traz, de novo, o senso de limite.

Enfim, o Japão e a Inglaterra são monarquias orgulhosas e cheias de lendas, algumas históricas, algumas inverossímeis. Duas monarquias onde floresceu a cavalaria andante e onde esta ainda serve de modelo de conduta, pelo menos no imaginário idealizador de quem não mora em nenhum dos dois lugares. Também são dois lugares onde a "fleuma" e o autocontrole são valorizados e dão status a quem os exerce, em especial se estiver em uma posição superior ou de comando. Quem assitiu "A ponte do Rio Kwai" percebe que o Coronel Nicholson (Alec Guinness) e o Coronel Saito (Sessue Hayakawa) são apenas lados diferentes de uma mesma moeda. São, na verdade, personagens tão parecidos que não é difícil imaginar um na situação do outro.

Japão e Iglaterra têm sociedades divididas em classes muito bem definidas, com relativamente pouco fluxo entre elas. Ambos os parecem ter no respeito à hierarquia social um valor importante. Naturalmente, em lugares assim, as pessoas devem poder estar contentes com sua posição social e ter orgulho de suas profissões e de seu papel na sociedade. Em especial as pessoas de classes menos ricas e em ocupações consideradas mais humildes podem ter uma certa atitude que, para nós, do "novo mundo" poderia parecer conformista. Não tenho como saber se isto é causa ou consequência da organização social mais rígida (ou as duas coisas), mas certamente contribui para a manutenção desta estrutura. (Vide post anterior)

Quanto à culinária, fala-se muito mal dos cozinheiros ingleses e os japoneses comem muitas coisas cruas, talvez para evitar que os cozinheiros as estraguem antes de servi-las. Mas não posso dizer que este seja um ponto em comum, até porque desconheço alegremente a culinária inglesa e gosto muito da comida japonesa.

O senso de humor, ou a falta dele (do senso, não do humor), é uma característica cultural muito importante, que cria uma certa identificação entre pessoas de uma mesma cultura. Tente contar piadas para estrangeiros e você vai entender do que estou falando. Não conheço o suficiente do senso de humor japonês para falar a respeiito. Mas, diz a lenda que um inglês conta uma piada para ele mesmo rir, fato já constatado por este que escreve estas maltraçadas. No caso dos comediantes ingleses (um oxímoro, aceito por motivos diplomáticos) o riso do público seria um efeito colateral, ou, como diria o povo de Campinas: "um plus a mais".

Não sei se, de fato, procede a comparação entre os dois países e em quanto esta é influenciada pelos estereótipos dos dois povos. Também pode ser resultado da leitura de mais de um livro do James Clavell...

O mínimo

Imagine um país onde se pode sustentar a família de forma digna e confortável, criar os filhos e até mesmo arcar com despesas médicas eventuais (seja porque são atribuição do Estado ou porque são acessíveis). Em um lugar assim, a necessidade de buscar "sempre mais" fica bastante diminuida. Naturalmente, isso é mais que justo. A maioria dos países desenvolvidos, na Europa, são assim (ou passam, de modo muito forte) este impressão. A Inglaterra e o Japão também, para adiantar um pouco o próximo post.

Acho lastimável que, no Brasil, tanta gente vá fazer faculdade (ou, na pior expressão possível, "tirar diploma") porque sem diploma "não vai ser ninguém", etc. Estudar além de um determinado ponto (digamos, além de um bom curso técnico) deveria estar mais relacionado com a paixão de aprender ou a vontade de trabalhar em uma profissão que exija curso superior, não deveria ser uma questão de sobrevivência.

No nosso caso brasileiro, pode-se dizer, no mínimo, que nossa sociedade não facilita muito a vida de quem faz trabalho técnico e/ou braçal. Há exceções e alguns trabalhadores de empresas grandes, a maioria multinacionais, que trazem uma cultura de respeito (mínimo) aos "peões", já que sabem que dependem mais de "quem faz" do que de "quem manda fazer". A lógica é razoavelmente simples: "Se todos forem engenheiros, quem vai, de fato, misturar a massa e construir as casas?"

Não quero aqui entrar em discussões sobre "luta de classes", "mais-valia", "conflito entre capital e trabalho". Há limites até mesmo para se falar sobre o que não se sabe. Contudo, o resrpeito mínimo ao trabalhador não depende necessariamente da posição do país ou da empresa no espectro ideológico "direita-esquerda". Alguns países capitalistas (e MUITO capitalistas) oferecem condições bastante dignas às chamadas "classes trabalhadoras". Por outro lado, há grandes empresas que já foram acusadas de usar mão de obra escrava. Ao mesmo tempo, há exemplos históricos de países autodenomindos socialistas onde os trabalhadores não tinham condições dignas nem de trabalho nem de vida (para dizer o mínimo).

Em uma sociedade onde o trabalhador mais humilde pode levar uma vida digna e razoavelmente confortável, a necessidade de ascenção social nao está relacionada à sobrevivência ou a garantia de um mínimo de dignidade e conforto.

Longe de pregar o conformismo, não seria lindo se, no mundo todo, as pessoas tivessem garantidas as condições de viver com dignidade, e se a educação universitária fosse uma questão de vocação, não de necessidade?

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

MAIS OU MENOS VEGETARIANA

Há uma piadinha velha e bem infame sobre o vegetariano que leva uma mulher para trás da moite e... come a moita.

Bom, parece que o dilema do vegetariano (a mulher ou a moita? a moita ou a mulher?) será finalmente solucionado. Notícia da Folha Online de hoje:

Mulher-Samambaia vai abrir restaurante vegetariano
(http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u321302.shtml)

A fêmea humano-pteridófita revela algumas tendências, digamos, quase canibais (será um caso inédito de canibalismo vegetal). Afinal, segundo a reportagem:

"A quem interessar possa, a Mulher-Samambaia revela sua preferência à mesa: gosta de comer folhas. 'Sou mais ou menos vegetariana. Também como frango de vez em quando.'"

Mais ou menos vegetariana? Alguém já ouviu falar de alguma planta mais ou menos carnívora?

Gosta de comer FOLHAS?? ...online?
(Um dia ainda vou tentar uma dieta à base de alimentos virtuais.)

Agora, falando sério. À pergunta, inevitável, sobre se pretendia se tornar atriz-cantora-apresentadora, a resposta da moça foi simples:

"Não, sou muito tímida. Quero ficar no 'Pânico'."

É um alívio ver alguém que, apesar da beleza inquestionável e depois de posar para uma revista masculina, não ambiciona ser apresentadora de programa infantil, cantora, atriz, ou seguir a carreira de "famosa" (carreira "artística" nova e em ascenção, após bigbrothers e afins). Acho que uma moça bonita que faz sucesso na televisão e não acha que "é artista" deveria ser um exemplo para todas os meninos e meninas bonitas que sonham em ser modelos ou em participar de qualquer destes programas do tipo "reality show" (diga-se de passgem, muito mais "show" que "reality"). É preciso que se compreenda que modelo não é artista, é modelo. O fato de alguns modelos se tornarem atores e atrizes deve ser encarado como uma exceção, não como a regra. Quem lembra da novela "Explode Coração" da Globo (aqui, alguns dados sobre os bastidores), há de lembrar do Ricardo Macchi, um exemplo de que, mesmo com a maior boa-vontade, a transição não é automática.

Aderindo à máxima "em time que está ganhando não se mexe", a insigne pteridófita humana demonstra grande senso de estratégia e uma sensibilidade admirável. Nossos ouvidos e senso estético agradecem!


sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

O SOL É PARA TODOS

O Sol é Para Todos, Harper Lee
Título Original: To Kill a Mockingbird (1960)
Tradução:
Fernando de Castro Ferro (1963)
Ed. Civilização Brasileira

Típica leitura de férias (para mim), o livro conta a história de Atticus Finch, um advogado do Alabama que defende um negro acusado de violentar uma jovem branca. A história é contada do ponto de vista dos filhos deste advogado de província, o que confere um tom bastante leve à narrativa. A autora retrata de forma bastante delicada e sutil o contexto das relações raciais no sul dos EUA na primeira metade do século XX. A influência deste contexto sobre os filhos de Finch e seu indefectível amigo de férias são mostrados com enorme sensibilidade. É difícil não reconhecer em algumas passagens um pouco da infância de todos nós.

Viúvo, com dois filhos relativamente pequenos, Atticus Finch passa muitas vezes a imagem do pai idealizado nas décadas de 1960-70. Contudo, tanto o personagem, como a trama realista, parecem bastante verossímeis. Isto constrói uma narrativa agradável e, de alguma forma, otimista. Há uma sugestão, presente ao longo do livro todo, de que mesmo nas sociedades e situações onde a intolerância reina absoluta, há pessoas que lutam silenciosamente pela igualdade, através da não-violência, apenas não se rendendo aos valores com os quais não concordam.

O livro foi publicado em 1960, não por acaso cinco anos após o boicote aos ônibus liderado pelo reverendo Martin Luther King Jr. Em 1963, King lideraria a histórica marcha a Washington DC, quando proferiu seu famoso discurso “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”)*. Não é demais lembrar que King foi o mentor do uso da resistência pacífica e da não violência na luta pelos direitos civis nos EUA.

A tradução que li é de 1963. Em alguns pontos, a construção das frases e as expressões utilizadas deixam a impressão de uma tradução Lusitana, ou de adaptação desta. Mas, apesar de causar alguma estranheza em alguns pontos, a leitura flui naturalmente. O filme de 1962, baseado no livro, ganhou três Óscares: melhor direção, melhor roteiro e melhor ator, com Gregory Peck no papel de Atticus Finch.

Enfim, é um livro de relevância histórica, que permite uma leitura lúdica. Traz com personagens bem delineados e uma mensagem de muita fé no ser humano, deixando saudade ao ser terminado, como as melhores leituras e as férias de verão.

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* O texto original do discurso (em inglês) pode ser encontrado facilmente na Internet (por exemplo, aqui, com uma breve introdução histórica). Uma versão em português pode ser lida aqui.