sexta-feira, 3 de março de 2017

Por favor, deixem todas as luzes acesas.

Imagem e créditos: https://pixabay.com/en/stained-glass-colorful-glass-1589648/  

Desde o segundo semestre de 2016, o mundo viu Donald Trump, o caricato e eterno candidato à presidência dos EUA ser eleito com um discurso racista, xenofóbico e assustador para quem acredita em direitos humanos para todos os seres humanos. Estamos também acompanhando o avanço da extrema direita na França e uma guinada conservadora no mundo em ergal ou, no mínimo, naquilo que os grandes meios de comunicação nos apresentam como "o mundo".

Ao mesmo tempo, que parece haver uma crise moral sem precedentes na nossa história (pelo menos na história recente do mundo ocidental ou do mundo mostrado pela mídia). Apenas para dar um exemplo fora do Brasil, uma assessora sênior do presidente dos EUA diz que uma dada declaração não foi mentira, mas uma referência a "fatos alternativos". Para usar uma expressão do José Simão: tucanizaram a mentira.

No Brasil, tivemos a consumação do golpe jurídico-midiático e, desde então, vemos um retrocesso inimaginável em termos de direitos sociais e trabalhistas. Acho que não exagero ao dizer que corremos o risco de voltar à era pré-Vargas. Avançam as privatizações, inclusive do pré-sal, que ia sustentar a educação do país. Boa parte do primeiro escalão do governo foi citada em delações sobre esquemas de corrupção. Ministros delatados são empossados, um indicado para o STF faz uma "sabatina informal" em um jantar em um iate junto com senadores que deveriam julgá-lo como apto ou não a ser empossado como Ministro na mais alta corte do país. Tudo isso, naturalmente, em nome do combate à corrupção.

Em muitos sentidos, o Brasil parece uma caricatura do mundo. Uma caricatura deveria ser algo que não existe, uma metáfora, não mais que isso. O Brasil, contudo, consegue este exagero, por um lado, no que há de mais ridículo, mais hipócrita, na mentira mais deslavada do escárnio a céu aberto. Conversas telefônicas gravadas ilegalmente são usadas como argumento para derrubar seu governo, mas conversas de um senador, em que ele diz, abertamente que se deveria fazer um golpe para "estancar a sangria" de uma operação contra a corrupção e menciona que o Ministro da suprema corte que é relator do caso "não conversa com ninguém" são tratadas como anedota, mesmo depois que o avião com o juiz citado cai.

Por outro lado, também somos caricatos na torpeza e maldade (sim, maldade pura e simples, independente das causas). O fenômeno pode ser mundial, mas aqui aceitamos o inaceitável como preço para evitar avanços sociais, mudanças no sentido de mais igualdade e jusitça. Ou seja, pagamos caro para manter os problemas que nos afundam cada vez mais.

As pessoas da assim chamada "ala progressita" criticam a visão dicotômica imposta por setores à direita, essa divisão entre "nós e eles". Ao mesmo tempo, como num espelho, muitos destes mesmos críticos usam esta mesma lógica em um discurso que talvez devesse ter uma forma diferente. Na prática, não sei se poderia ser diferente de todo. Talvez por alguma limitação cognitiva, tenho enorme dificuldade em "ver o que há de bom" em o povo se manter ou voltar à miséria, quem afirma que pobres não chegam à universidade pública "por falta de mérito próprio", quem deseja a manutenção e o aprofundamento do "escravagismo assalariado" moderno, para manutenção de um sistema que beneficia apenas alguns às custas de submeter milhões à miséria, á fome, etc. Olha para a história da humanidade e me pergunto se alguém com um mínimo senso ético, uma visão mínima de justiça social, poderia ter visto algo de "bom" no nazismo, no fascismo espanhol, ou mesmo nas ditaduras militar militares da América Latina, durante a guerra fria.

Não se trata, aqui, de uma batalha entre "os bons" (os "progressistas do bem") versus "os maus" (os "homens de bem", ou, mais precisamente, "de bens"). Somos todos humanos, com falhas e virtudes. Contudo, mesmo que o bem possa ser relativizado, o mal que nossa sociedade enfrenta hoje chega bem próximo da beira do absoluto. A luz pode ter muitas cores, mas as trevas não têm cor nenhuma, são a ausência de luz. Às vezes parece que marchamos céleres em direção às trevas éticas, à ausência generalizada de senso de coletividade em todos os níveis, enfim, à barbárie do "cada um por si", que é o fim da civilização.

A quem acha que a situação não pode piorar, sugiro um exercício lúdico que, tenho certeza, terá resultados surpreendentes: basta anotar o estado daquilo que acha que não pode piorar e a data de hoje em um papel e olhar daqui a, digamos, seis meses ou um ano.

Enfim, há luzes de muitas cores de muitos lados e, de um lado, há apenas escuridão. E estamos andando para ela.

Luzes coloridas permitem ver o mundo de muitas formas diferentes.

Por favor, deixem todas as luzes acessas.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Denegação



Momento triste da história do Brasil. Somos, neste momento, uma caricatura do mundo. Num mundo onde o Trump pode ser presidente do EUA, essa tarefa de ser caricatura não é fácil. Mas isso não é engraçado.


I
(EUA, mundo)
Orlando, Flórida. 49 pessoas são mortas e 53 ficam feridas em um nightclub. O atirador é morto pela polícia. O local era frequentado principalmente por gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, etc. O assassino se dizia chocado por ver homens se beijando na rua, tinha feito um voto ao Exército Islâmico, ao qual não aprecia pertencer, falando sobre gays. Foi uma boate gay, matou 49 pessoas gays e feriu mais 53. Mas isso não é homofobia. O fato de ele detestar gays não tem nda a ver com ele ir a uma boate gay e matar... gays.

II
(Rio de Janeiro, Brasil)
30 homens tem relações sexuais forçadas com uma menina desacordada ou semiconsciente, que protesta e pede que não a violem. Ela está em algo parecido com cárcere privado, é levada de um lugar para outro. Mas isso, 30 (trinta!) homens forçarem uma mulher privada de liberdade e não copletamente consciente a fazer sexo com eles não é estupro. Afinal, ela é da favela, não é virgem e deve ter provocado. Nada a ver com estupro, claro. Ela deve ter saído de casa pensando como faria para ser violentada por 30 homens inocentes no mesmo dia.

III
Claro que não existe cultura do estupro. Mulher estuprada é porque estava pedindo. As vítimas de estupro são responsáveis, porque provocam. Daí se conclui que os estupradores estão fazendo um favor a elas. O fato de que a maior parte dos estupros acontece dentro das famílias demonstra isso claramente.

IV
Uma presidente da República é afastada d cargo sem que haja sequer acusação de crime de responsabilidade contra ela. Algum tempo depois, vazam gravações de conversas telefônicas dos políticos que conspiraram para que ela fosse afastada, dizendo que ela não barrava investigações que os pejudicariam diretamente. COnversam sobre opções de como "parar essa sangria" e falam abertamente em afastá-la. Mas não, o afastamento não foi golpe.

V
(Brasília, Brasil)
O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, diz que não tem dinheiro nem contas no exterior. Confrontado com relatórios do Ministério Público Suíço mostrando contas e movimentações em seu nome, ele declara ser "apenas usufrutuário" do dinheiro. De onde o dinheiro veio e por que ele usa dinheiro que não é dele são perguntas que não são são feitas e para as quais provavelmente não haveria resposta. Ele é afastado da Câmara pelo STF, mas a votação de sua cassação por quebra de decoro parlamentar no conselho de ética fica praticamente empatada. Receber milhões de dólares em dinheiro na Suíça não é ter conta no exterior.

VI
O presidente interino Michel Temer monta um Ministério e um segundo escalão composto, em grande parte, por investigados, indiciados ou mesmo réus por crimes dos mais variados, incluindo crimes comuns, não ligados a nenhuma função pública. Mas é um governo honesto.

VII
O governo da Presidente afastada Dilma Rousseff não podia ter o ex-presidente Lula como ministro, porque ele era investigado na Lava Jato. A Presidente não é acusada de nenhum crime, nada pesa contra ela. Mas é uma presidente desonesta.

VIII
Jovens negros são assassinados todos os dias. A probabilidade de um negro sofrer morte violenta é muito mais alta que aquela de um branco sofrer morte violenta. Mas o país não é racista.

IX
A abordagem policial de moradores da periferia é truculenta, violenta e muitas vezes resulta em morte do abordado. A abordagem de pessoas brancas com aparẽncia burguesa é cortês. Nenhum branco com cara de burguês é morto pela polícia como resultado de abordagem. Mas não, a polícia não faz discriminação social nem racial.

X
Religiosos políticos e políticos religiosos discriminam e incentivam a violência contra homossexuais, bissexuais, gays, etc. Defendem que não existe homofobia, o problema é a cristofobia. Cristofobia existe, homofobia, não. Gays são mortos todos os dias em taxas muito mais altas que heterossexuais, mas isto acontece por acaso. O problema do país é a cristofobia.

XI
Morre muita gente de tiro, na guerra às drogas. Alguns também morrem de facadas. Poucos morrem de overdose. Mas é preciso recrudescer o combate às drogas, porque o problema são as drogas, que, diretamente, não matam quase ninguém. A guerra às drogas que é quase um genocídio não é um problema.

XII
O aborto clandestino mata milhares de mulheres todos os anos. A legalização do aborto evitaria estas mortes e permitiria inclusive reduzir o número de abortos, como aconteceu no Uruguay, onde metade das mulheres deixaram de fazer aborto depois de conversar com a equipe de saúde. Mas é preciso proibir o aborto até nos casos em que seria legalmente aceito. Assim, preserva-se a vida.

XIII
Mulheres pobres têm muito mais chances e morrer fazendo abortos clandestinos do que mulheres ricas que podem pagar clínicas caras e, supostamente, melhores. O mesmo com mulheres negras em relação às mulheres brancas. Mas a insistência na proibição do aborto não têm nenhuma discriminação social ou racial embutida.

XIV
Fazer aborto é um assassinato de um inocente que não pode se defender. Chacina na periferia, matando crianças, mulheres e homens adultos, tudo bem, porque se estavam lá, boa coisa não estavam fazendo. Ou seja, depois que se desenvolve, nasce e cresce, pode ser morto porque mora na periferia. Mas aborto é um crime muito pior. Não, não existe incoerência nisso.

XV
O Ministério do presidente interino Temer é composto apenas por homens, só há mulheres no segundo escalão. Mulheres podem, portanto, ocupar secretarias, mas não ministérios. Uma secretaria que se torna ministério recebe um ministro homem. Mas, não, o presidente interino Temer não é machista.

XVI
Uma sequência de governos que tirou milhões da fome e da miséria em 12 anos, que promoveu acesso à luz elétrica e saneamento básico, que promoveu acesso de pobres ao ensino superior foi uma sequência de governos em que nada se salva. Foi tudo muito, mas muito ruim mesmo.

XVII
Manter o pré-sal e a Petrobrás como patrimônio dos brasileiros é mau, muito mau, péssimo mesmo. Empresa pública só gera roubalheira. Entregar isso tudo para empresas estrangeiras é bom, porque daí não haverá mais roubos. Afinal, não podem nos roubar o que já entregamos de mão beijada.

XVIII
Se a tragédia ambiental da Samarco, que destruiu a cidade de Bento Rodrigues saiu da mídia e não se fala mais a respeito, não deve ter acontecido.

XIX
Cayman papers? Zelotes? HSBC? Swissleaks? Nada disso aconteceu, nem a Lava Jato que, depois de cumprir seu objetivo político, está para ser abortada. (Opa! mas aborto não era pecado? melhor dizer que "a Lava Jato será descontinuada".).

XX
Não houve mensalão tucano, não houve corrupção nas obras do metrô de São Paulo, não sabemos nada sobre desabamentos em obras do Metrô de SP, nem de viadutos em Belo Horizonte.

XXI
Alguns vazamentos de gravações de conversas telefônicas são bons, úteis, republicanos e estão dentro da normalidade. Mas só alguns, os outros são maus, ilegais e quase poderiam ser considerados atos terroristas.

XXII
(EUA, Mundo)
O problema dos Estados Unidos são os imigrantes, especialmente esses que professam uma religião e uma cultura diferentes do nativos. Outro problema são os índios.

XXIII
O Brasil está resolvendo seus problemas, não recebemos muitos imigrantes, nem muitos refugiados e estamos acabando com os índios.

XXIV
O porte de armas deveria ser liberado para todos, porque isso promove a paz. Só não podem ter armas os pobres, os negros, as feministas, os gays, os militantes de esquerda e a torcida do Corinthians.

XXV
Advogados não devem ter que respeitar o rodízio de veículos em São Paulo e devem ganhar autorização para porte de armas. Advogados salvam vidas.

XXVI
Mas o Samu deve ser extinto porque é um gasto desnecessário de recursos públicos.

XXVII
Intolerante é quem defende um governo eleito, quem defende programas sociais e quem defende que todos devem ter direitos iguais. Ao defender isso tudo, quem não aceita que se mandem os pobres de volta à miséria, é intolerante e está polarizando a discussão. (Isso deve ter a ver com a cristofobia.)

XXVIII
Desenvolve-se um discurso de que "não existem raças humanas". Mas até quem usa este discurso diferencia quem é negro de quem é branco apenas ao olhar para eles e diferencia também orientais de negros e brancos. Não existem raças, mas existe racismo.


E continua...

terça-feira, 31 de maio de 2016

O governo interino derruba um preconceito

O governo interino do Temer vem conseguindo, aparentemente sem esforço, derrubar um mito vigente desde o processo de abertura democrática, o que não deixa de ser um serviço prestado ao senso crítico geral.

Talvez isso venha de muito antes, mas pelo menos desde o final da ditadura militar e até recentemente, acreditava-se em um ser mitológico chamado "A Eficiência da Direita", especialmente quando no governo. Esta forma de vida seria sustentada pelo que se costumava chamar de "O Consenso da Direita".

Hoje, vemos que o tal consenso se enquadra no rol de unaninimidades Nietzschianas, dentre as mais burras, aliás. Já a tal eficiência no governo... pode-se dizer que esta se mostra claramente nos quesitos "ministro desautorizado", "ministro desmoralizado", "ministro caindo" e "atitudes atabalhoadas" do que em qualqer outra coisa com consequências administrativas.

Não se trata, aqui, de questionar a legitimidade ou moralidade do governo interino. É perda de tempo insistir no óbvio. Mas derrubar preconceitos é sempre um bom serviço prestado.

Já é um motivo digno para este governo entrar para a história.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Entre hienas e lacerdistas, um Judas sem carisma

Os otimistas acham que Temer vai usar a máquina do Estado nas eleições de 2018 e que, mesmo que consigam tornar Lula inelegível, haverá alguém de esquerda (ou, no mínimo, de viés popular, como Ciro Gomes) que poderá concorrer com algum apoio e talvez alguma chance mas que não vai se eleger devido ao clima de terror criado com a repressão aos protestos pós-golpe. Eu gostaria muito de ser otimista.

Os realistas vêem a possibilidade de resistência ao governo espúrio (embora legalmente constituído) do Temer. A expectativa é de que os movimentos sociais vão se insuflar. Daí, em nome da "segurança nacional", o congresso mais conservador e mais sujo da nossa história recente aprova mecanismos de forte repressão. Claro, deixam-se válvulas de escape, porque é bom manter inimigos ativos, para poder dizer que a ameaça continua. Cria-se, assim, um clima de terror e a direita coxinha ganha as eleições de 2018.

Os pessimistas acham que, em "nome da democracia" e para evitar o "terrorismo", a repressão vai culminar com o cancelamento das eleições de 2018.

Tudo pode acontecer, claro, inclusive... nada. Mas independente do grau de otimismo de cada um, estamos diante de uma encruzilhada improvável entre 1954, 1964 e 1984.

Uma olhada rápida na nova lei "antiterrorismo", aprovada há alguns meses pode ser interessante, neste momento. Em nome do "antiterrorismo" e da suposta "segurança nacional" vale fazer qualquer forma de terrorismo de estado. Pode-se esperar algo muito parecido com um Estado de Exceção. Permanente, aliás, o que deveria gerar um paradoxo, mas não há paradoxos na nossa lógica política do "tudo pode quem ameaça, bate e prende". É como golpistas e elites costumam governar, especialmente quando há líderes com apoio popular que golpistas e elites não entendem, desconhecem e, naturalmente, temem.

sábado, 21 de março de 2015

Lei prevê até 4 anos de cadeia para quem faz propaganda de golpe militar

O texto a seguir, do Blogue Conexão Brasília, sofre de algum mal inexplicável, já que, do endereço original (veja aqui), é impossível compartilhá-lo no Facebook. (Hey, Mr. Zuckerberg, what's going on?).

Como achei o texto uma leitura fundamental para o momento atual, e considerando a impossibilidade de compartilhá-lo pela Rede Social mais popular do planeta,  pedi autorização ao autor para repostá-lo aqui. Quem sabe consigo dar alguma visibilidade ao texto a partir deste humilde espaço? Obrigado, André, pela autorização.

(Atualização em
22.mar.2015 às 14:19h: O link original foi alterado e agora a publicação pode ser compartilhada no Facebook, corrigi o link aqui, também. )

Com a palavra,
André Gonçalves, do Blogue Conexão Brasília:
(Endereço do texto em sua origem: http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/conexao-brasilia/lei-preve-ate-4-anos-de-cadeia-para-propaganda-de-golpe-militar/)



Lei prevê até 4 anos de cadeia para quem faz propaganda de golpe militar

Muitos comentários no post Não existe “ditabranda” nem “ditacurta”. Defender intervenção militar é crime colocaram dúvidas sobre o alcance da legislação brasileira contra aqueles que defendem o golpe militar.

O blog consultou uma das maiores autoridades do país sobre Direito Penal, o advogado René Ariel Dotti, para esmiuçar a questão.

“Quem defende golpe ignora a experiência trágica da ditadura militar”, diz o professor Dotti. “Se hoje vivemos uma crise de lideranças políticas, continua sendo grande parte em função daquelas que foram ceifadas pelo regime de exceção.”

Segundo ele três dispositivos abrangem essa questão no país. Eles são autoexplicativos. Só não entende quem não quer.

O primeiro é a Constituição Federal:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

XLIV – constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático;

O segundo é a Lei de Segurança Nacional (7.170/1983):


Art. 22 – [É considerado crime] Fazer, em público, propaganda:
I – de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social;

II – de discriminação racial, de luta pela violência entre as classes sociais, de perseguição religiosa;
III – de guerra;
IV – de qualquer dos crimes previstos nesta Lei.
Pena: detenção, de 1 a 4 anos.
§ 1º – A pena é aumentada de um terço quando a propaganda for feita em local de trabalho ou por meio de rádio ou televisão.
§ 2º – Sujeita-se à mesma pena quem distribui ou redistribui.
Art. 23 – Incitar:
I – à subversão da ordem política ou social;
II – à animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições civis;
III – à luta com violência entre as classes sociais;
IV – à prática de qualquer dos crimes previstos nesta Lei.

Pena: reclusão, de 1 a 4 anos.

O terceiro é o Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940):

Incitação ao crime
Art. 286 – Incitar, publicamente, a prática de crime:
Pena – detenção, de três a seis meses, ou multa.
Apologia de crime ou criminoso

Art. 287 – Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime:
Pena – detenção, de três a seis meses, ou multa.
***






quinta-feira, 4 de julho de 2013

futebol, educação, respeito, intolerância e outras palavrinhas chatas

O objetivo deste texto é expressar meu desejo que o futebol, assim como todas as outras dimensões da nossa vida social, tenha seu próprio lugar, sem se sobrepor às outras dimensões da existência em sociedade. Afinal, todas essas dimensões são, no mínimo, tão importantes quanto o esporte em geral, tanto para nossa felicidade como indivíduos quanto como cidadãos.


(Vemos, atualmente, no Brasil, uma tendência a se considerar "intolerante e agressivo" quem não concorda com a gente. Não vou alongar o assunto aqui, mas preciso desta introdução para esclarecer o motivo das ressalvas com que inicio. Acredito que a diversidade de idéias é uma coisa boa para a sociedade e que discutir um tema não significa, necessariamente, tentar fazer com que as outras pessoas mudem de ideia e concordem comigo. Ressalvas feitas, prossigo.)

Esporte é uma coisa fantástica, ajuda a formar cidadãos, ensina a viver e trabalhar em equipe, mostra a importância de todos em uma equipe e ensina valores como respeito aos adversários, humildade na derrota, mas sem perder a auto-estima e svitória sem arrogância, coisas importantíssimas na vida!

Apesar disso, é preciso dizer que, de algum tempo para cá, vejo no futebol um caráter extremamente "deseducativo". Não desejo a extinção do futebol, mas, como cidadão, desejo profundamente que este volte ao seu devido lugar na nossa cultura.

Vejamos algumas das coisas que percebo que o futebol "ensina" dentro e fora do campo. Para isto, é preciso partir do ponto de vista de um jovem (e de alguns adultos que conheço) que ainda não tem seus valores e anseios de vida completamente definidos. O que aprendemos (ou, mais relevante, o que os jovens aprendem) com as atitudes dos jogadores-estrelas, com o comportamento das torcidas e com a ênfase da maios parte da cobertura jornalística do futebol? 

Vejamos alguns exemplos curiosos.

La Mano de Dios. Num jogo da seleção argentina contra a seleção da Inglaterra, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1986 (disputada no México) Maradona fez um gol descrito da seguinte forma na Wikipedia (1): "Após o zagueiro Steve Hodge chutar a bola para o alto, Maradona correu na direção do goleiro Peter Shilton e, com o punho cerrado, pulou e com a mão jogou a bola por cima do adversário, vinte centímetros mais alto. O árbitro tunisiano Ali bin Nasser validou o gol, revoltando todo o time inglês." Diante das perguntas da imprensa ao final do jogo sobre o gol polêmico, no mínimo, Maradona respondeu: “Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios” ("Marquei-o um pouco com a cabeça e um pouco com a mão de Deus", em tradução livre.) Na Copa do Mundo da Itália, em 1990, Maradona re-editou "la mano de Dios), não para marcar um gol, mas para impedir um gol da seleção da antiga URSS. O árbitro sueco Erik Fredriksson não marcou a falta. Foi apenas em 2005, 19 anos depois da partida contra a Inglaterra, que Maradona admitiu que o golde 1986 contra a Inglaterra foi marcado com a mão. O gol de mão do Maradona, é até hoje festejado com frases do tipo "ele pode fazer gol de qualquer jeito", porque é o melhor do mundo. Há muitos outros exemplos que acho desnecessário citar. Gosto deste, porque é representativo de todo um contexto. A forma com que a Argentina conquistou a Copa de 1986 é assunto controverso até hoje(2). 

A pergunta que se impões é: “Quantas vezes defendemos um time, mesmo contra as regras do jogo e contra qualquer senso de justiça, espírito esportivo, fair play, etc.?” Isso, naturalmente, cada um só pode responder por si. Apesar disso, mais que interessante, acho que é uma pergunta fundamental.

Oruro, Bolívia, fevereiro de 2013. Durante jogo válido pela Copa Libertadores da América (ah, a ironia deste nome!) entre Corinthians e San José da Bolívia, a torcida do Corinthians dispara um sinalizador Naval em direção à torcida do San José, atingindo o menino Kevin Beltram Espada. O assassinato do garoto pela torcida do Corinthians resultou na detenção de um grupo de torcedores que portavam sinalizadores semelhantes em suas sacolas. Um personagem demosntrou a devida lucidez após o jogo. Tite, o técnico do Corinthians, honrosamente demosntrando sua lucidez e seu senso de prioridades, declarou: "Não se vence a qualquer custo. O esporte tem outro sentido. Desculpem-me. Sei que o que vou dizer não vai tirar a dor de ninguém. Estamos muito sentidos (...) Eu trocaria o meu título mundial pela vida do menino". Afora isto, o acontecido foi tratado como se fosse uma infração de trânsito pela mídia e pelos torcedores e dirigentes corintianos, que declararam ser injusto manter torcedores “inocentes” presos num país estrangeiro. O Corinthians fez uma doação de 50.000 dólares americanos para a família da vítima. Houve também um jogo amistoso entre a seleção brasileira e a da Bolívia, cuja renda deveria ser revertida para a família. A fim de libertar os torcedotres detidos na Bolívia, a torcida do Corinthians apresentou um jovem de 17 anos que confessou ser o autor do disparo do sinalizador que matou Kevin Spada. Este jovem, que não será processado criminalmente por sermenor de idade, não estava entre os detidos pela polícia boliviana. Apesar de negar ter assumido a responsabilidade pelo ocorrido para proteger outros membros da torcida, ele recebeu, logo depois, uma bolsa de estudos completa para a faculdade que quiser cursar, por conta da torcida do Corinthians (3). Alguém acha mesmo que foi este jovem que fez o disparo? Sou só eu que penso que ele foi recrutado para "assumir a bronca" porque tem 17 anos e será tratado de acordo com o "Estatuto da Criança e do Adolescente", que prevê medidas socioeducativas, um custo pessoal infinitamente menor para ele do que seria para os torcedores adultos se fossem julgados e condenados na Bolívia?

Os "ídolos". Vejamos alguns exemplos de pessoas “bem sucedidas” que a mídia impinge aos jovens: Edmundo (tá, faz tempo), Ronaldo Nazário, Adriano, Bruno, Ronaldinho gaúcho e mesmo o Neymar, para ficar apenas nos mais evidentes. Será que estes são mesmo tão bons exemplos de cidadania e de como pessoas devem agir para serem bem sucedidas? Quantos de nossos filhos, sobrinhos, irmãos, netos, querem ser "bem sucedidos" como eles?

As torcidas. Em Belo Horizonte, vendem-se ingressos em dias separados para as duas torcidas majoritárias, porque, se grupos de torcidas rivais se encontram, se matam na pancada, literalmente. Em Belo Horizonte e em São Paulo, quando um dos times majoritários vence um campeonato ou algum jogo importante, quem não tá nem aí pra coisa, quem tem que trabalhar no dia seguinte, ou quem torce para qualquer outro time não dorme. Claro pra festejar "vitória" (como se a torcida entrasse em campo, jogasse bola e ganhasse os salários e luvas de valores absurdos de alguns jogadores), vale até depredar mais a cidade do que os supostos vândalos nas manifestações (mas daí o povo acha "normal" e a Globo fala em "paixão nacional"). Gritar "chupa adversário bundão fidapú" também ensina muito sobre como lidar com vitórias e derrotas na vida e mais ainda sobre respeito e espírito esportivo (que é a coisa mais legal que o esporte pode ensinar, quando ensina).

(Novamente, não tenho nada contra festejar vitória em futebol ou em outro esporte. Mas respeito é algo que a gente deve ter como pressuposto básico ao fazer qualquer coisa.)

Na recente final da Copa das Manifes... ops! das Confederações, fiquei contente, sim, com a vitória do Brasil. Mas pensava mais em quem estava apanhando e se ferindo do lado de fora do Maracanã por acreditar que pode fazer um país melhor para todos (independene de vencer campeonato) e não consegui deixar de perceber as comemorações efusivas como uma forma de escárnio contra quem luta para o Brasil ser vitorioso todos os dias, não mais do que a cada quatro anos em um campo de futebol.

Não sou contra a seleção, mas também não acho que ela seja "o Brasil". Por mim, se isso fosse possível, trocaria todos os títulos mundiais da seleção e dos clubes brasileiros por posições no topo dos rankings nos índices de desenvolvimento econômico, igualdade social, desenvolvimento humano, educação e saúde. Gosto da seleção, apenas dou mais importância para outras coisas. Não me sinto pessoalmente muito melhor e mais satisfeito quando "o Brasil" ganha uma copa, porque não me sinto ganhando nada. Mas me sinto bem quando vejo uma comunidade pobre desenvolvendo projetos culturais, quando assisto a algum filme nacional que me dá orgulho de ter sido feito aqui (mesmo quando mostra problemas do país) e não precisa ser dublado para a maioria da população... Mas vou ter mais orgulho ainda quando a TV passar filmes legendados e todos puderem acompanhar sem dublagem, porque vencemos o analfabetismo. Tenho orgulho dos cientistas brasileiros que fazem trabalhos significativos no exterior, mas anseio pelo dia em que cientistas estrangeiros vão querer vir trabalhar aqui. Acharia lindo o Brasil ter escolas internacionais de futebol, mas não que estas fossem uma das únicas esperanças para meninos pobres mudarem de vida (além de fazer música de qualidade discutível, com letras mal escritas e temas vulgares). 

O futebol é lindo, e ficaria mais lindo como apenas mais uma cereja na cobertura de uma torta deliciosa, coberta de creme e de outras cerejas. Cerejas como vitórias em campos culturais, sociais, de promoção de igualdade, de respeito às diferenças (e mesmo a valorização delas!), vitórias em outros esportes, que meninos de todo o país teriam oportunidades de praticar. A cobertura do bolo seria um país onde se possa ser feliz e levar uma vida digna e relativamente despreocupada sem precisar estudar além do que se deseja ou gosta. Um país onde se possa ser lavadeira, técnico em refrigeração, mecanico de automóveis, operário da construção civil sem se sentir "menos que o dotô" e que estas pessoas possam viajar para algum lugar legal uma vez por ano, sem ter que contar os trocados todo mês para pagar o aluguel, sem ter certeza se vai conseguir no mês seguinte... Onde todo mundo que quer estudar numa faculdade ou mesmo ir além possam fazer isso, sem se sentirem "pessoas melhores" do que quem conserta seu carro ou leva seu lixo embora.

Todos que se sentem ganhando algo quando a seleção (ou seu time do coração) vence um campeonato têm meu respeito e até uma pontinha de minha inveja. Terão todos a minha admiração, também, se souberem respeitar quem não se sente tendo muito a festejar com isso e que quer dormir para trabalhar no dia seguinte.

Não julgo mal quem acha o futebol a coisa mais importante de sua vida, mas não quero ser julgado por fazer escolha diferente e por sonhar com coisas um pouco além disso, mais duradouras e, infelizmente, mais difíceis de alcançar.


quinta-feira, 17 de março de 2011

ao deus que habita em mim

Desejo fazer de minha vida uma prece, um mantra em que cada momento seja uma oração silenciosa de paz e de amor.

Mesmo errando, porque sou humano, quero errar de forma sincera. Ainda que por isto os erros sejam maiores e mais visíveis, que o sejam na tentativa do acerto.

Desejo que meus erros não firam outras pessoas, que eu saiba arcar com minhas consequências e que nunca deposite meus fardos sobre ombros alheios.

Quero aprender as lições que meus erros me trazem e, assim, fazer deles algo melhor do que apenas erros.

Tendo aprendido o que havia a aprender com eles, quero não repetir os mesmos erros.

Admitindo minha condição humana e falível, quero ser humilde, aprender a pedir perdão e a concedê-lo, mesmo a quem não o pediu.

E, conseguindo estas coisas, quero aprender a perdoar a mim mesmo.

E então, quero aprender a não desejar mais nada.